
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Wegovy e Mounjaro são as duas opções mais discutidas para perda de peso com medicação, e quem está considerando o tratamento quer saber, com razão, qual entrega mais resultado.
Os estudos clínicos trazem boa parte da resposta, mas o resultado de cada pessoa depende de muitos fatores individuais, o que torna a avaliação médica indispensável.
A ideia aqui é reunir o que a ciência mostra para que você chegue mais bem informada à conversa com o médico.
Duas canetas, mecanismos diferentes
Antes dos números, vale entender o que cada medicamento faz, porque a diferença maior começa aqui.
O que é a semaglutida (Wegovy)
O Wegovy tem como princípio ativo a semaglutida, uma molécula que imita o hormônio GLP-1 (glucagon-like peptide-1), produzido naturalmente pelo intestino após as refeições.
Esse hormônio atua enviando sinais de saciedade ao cérebro, ajudando a reduzir a fome, além de retardar o esvaziamento do estômago e contribuir para o controle da glicose no sangue.
No caso do Wegovy, a semaglutida é utilizada em uma dose mais alta do que no Ozempic. Por isso, apesar de serem baseados na mesma molécula, os dois medicamentos não são intercambiáveis.
O que é a tirzepatida (Mounjaro)
Já o Mounjaro contém tirzepatida, uma molécula mais recente que atua simultaneamente em dois receptores hormonais: GLP-1 e GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide).
O GIP é outro hormônio produzido no intestino que também participa da regulação do apetite e do metabolismo da glicose. Ao combinar a ação nesses dois alvos, a tirzepatida promove um efeito duplo no controle da fome e da resposta metabólica.
Essa característica diferencia o Mounjaro de outros medicamentos da mesma classe e, de acordo com estudos clínicos, pode estar associada a uma maior perda de peso em comparação com terapias que atuam apenas no GLP-1.
Para entender melhor quanto de peso é possível perder com o Mounjaro, vale ver o detalhamento por fase.
O que os estudos dizem sobre perda de peso
SURMOUNT-5: o primeiro comparativo direto
Durante anos, médicos e pacientes compararam os dois medicamentos usando dados de estudos separados, o que não é ideal.
Em maio de 2025, o New England Journal of Medicine publicou o SURMOUNT-5, estudo desenhado especificamente para comparar tirzepatida e semaglutida frente a frente, em adultos com obesidade sem diabetes tipo 2.
Os resultados foram claros. Após 72 semanas, quem usou tirzepatida perdeu em média 20,2% do peso corporal. Quem usou semaglutida, 13,7%. Em quilos, isso representa cerca de 22,8 kg versus 15,0 kg, respectivamente.
O estudo também mostrou que a tirzepatida aumentou a probabilidade de atingir diferentes metas de perda de peso (10%, 15%, 20% e 25%), com desempenho superior em todas as faixas avaliadas.
Além disso, a redução da circunferência abdominal foi, em média, cerca de 5 cm maior no grupo da tirzepatida em comparação ao grupo da semaglutida.
O que mostram os dados de uso após os estudos
Os dados clínicos são confirmados por estudos observacionais, ou seja, pelo uso dos medicamentos por pessoas em tratamentos médicos convencionais.
Uma meta-análise publicada em 2025 no Journal of Clinical Medicine Research, reunindo dois ensaios randomizados e cinco coortes retrospectivas, encontrou que a tirzepatida produziu perda de peso significativamente maior que a semaglutida (diferença média de 4,23 pontos percentuais), independentemente do tipo de estudo ou da duração do tratamento.
A consistência entre dados de ensaios clínicos e mundo real fortalece a conclusão: em média populacional, a tirzepatida performa melhor para perda de peso.
Efeitos colaterais: são muito diferentes?
Os dois medicamentos apresentam um perfil de efeitos adversos predominantemente gastrointestinais, como náuseas, constipação, diarreia e desconforto abdominal. Esses sintomas costumam surgir nas primeiras semanas de uso e tendem a diminuir ao longo do tempo, especialmente com a titulação gradual da dose.
Alguns dados releventes:
- No estudo SURMOUNT-5, entre 77% e 79% dos participantes de ambos os grupos relataram pelo menos um efeito adverso, com incidências bastante semelhantes entre os medicamentos.
- A taxa de descontinuação por efeitos adversos foi ligeiramente menor no grupo da tirzepatida, em torno de 6%, contra 8% no grupo da semaglutida.
Entender e manejar esses efeitos colaterais faz parte do processo de adesão ao tratamento com Mounjaro.
Além disso, existem diferenças e cuidados individuais que precisam ser avaliados pelo médico antes da prescrição, como histórico de pancreatite e algumas condições da tireoide, que podem influenciar a indicação de cada medicamento.
No Brasil: aprovações, receita e custo
Desde 23 de junho de 2025, ambos os medicamentos passaram a exigir receita médica com retenção obrigatória na farmácia, com validade de 90 dias. A medida foi adotada em resposta ao aumento de eventos adversos relacionados ao uso sem indicação e acompanhamento adequados.
Wegovy
O Wegovy foi aprovado pela Anvisa em janeiro de 2023 e chegou às farmácias brasileiras em agosto de 2024, sendo o primeiro análogo de GLP-1 de uso semanal aprovado no país especificamente para o tratamento da obesidade e do sobrepeso associado a outras condições de saúde.
Mounjaro
O Mounjaro teve uma trajetória diferente. Ele já estava disponível desde 2023, mas com indicação exclusiva para diabetes tipo 2.
Em junho de 2025, a Anvisa aprovou a tirzepatida também para o controle crônico do peso, tornando o Mounjaro uma opção formal para pacientes com IMC igual ou superior a 30, ou a partir de 27 na presença de pelo menos uma condição de saúde associada.
Em outubro de 2025, a indicação foi ampliada para incluir casos de apneia obstrutiva do sono moderada a grave.
E o preço?
O custo dos dois varia conforme a dose e o canal de compra, e tende a mudar com o tempo, sobretudo com a expectativa de versões genéricas da semaglutida nos próximos anos.
Em vez de fixar valores que envelhecem rápido, vale acompanhar o valor do Mounjaro e as alternativas de acesso disponíveis. Por enquanto, nenhum dos dois tem cobertura pelo SUS.
Então qual é melhor para mim?
Fatores como metabolismo, tolerância aos efeitos adversos, histórico clínico, uso de outros medicamentos e a capacidade de manter o tratamento ao longo do tempo influenciam diretamente os resultados de cada pessoa.
Bruno Halpern, vice-presidente da ABESO, resume bem essa ideia ao destacar que, com mais opções disponíveis, é possível construir estratégias de tratamento mais individualizadas e ajustadas a cada paciente.
A acompanhamento faz diferença
É importante lembrar que nenhum dos dois medicamentos funciona como solução isolada. Em todos os estudos clínicos que mostraram esses resultados, o uso foi combinado com dieta hipocalórica e atividade física.
Além disso, o reganho de peso após a interrupção do tratamento já está bem documentado, o que reforça a necessidade de encarar essas terapias como parte de uma abordagem mais ampla e contínua, sempre com acompanhamento profissional.
O que lembrar
- No comparativo direto (SURMOUNT-5), o Mounjaro levou a perda de peso maior que o Wegovy: 20,2% contra 13,7% em 72 semanas.
- A vantagem da tirzepatida se manteve em todas as faixas de redução e na circunferência abdominal.
- Os efeitos colaterais são parecidos nos dois, predominantemente gastrointestinais e mais intensos no início.
- Eficácia média não define a melhor escolha individual. Histórico, tolerância e custo entram na decisão.
- Desde junho de 2025, os dois exigem receita com retenção, válida por 90 dias.
- O reganho após a interrupção é documentado. O tratamento funciona melhor como parte de uma mudança acompanhada.



